A Descoberta – Vale Literário

valeSmall Tenho um projeto literário com mais três amigos escritores, chamado Vale Literário. Neste projeto, propomos temas-desafios e cada um tem que escrever um texto sobre o tema. O primeiro destes foi “A Descoberta”, e publico abaixo o meu texto. Caso queira ver o texto dos outros participantes, acesse o site do nosso projeto: www.valeliterario.com.br. Aguardamos seus comentários!.. :)

A Descoberta

Leandro Soriano Marcolino

Abandonara a mulher e os filhos. Sua pele ainda ardia com as unhadas. Pegara poucas roupas, a chave do carro, uma latinha de cerveja, e agora dirigia sem rumo para uma cidade qualquer.

Há anos sentia uma certa angústia. Aquela sensação de que poderia ser feliz. Precisava apenas de pequenos prazeres. Pequenos prazeres, como tomar uma cerveja, comer uma boa refeição, correr com um cachorro, assistir tranquilo à um jogo de futebol. Mas como era tudo tão difícil naquela vida familiar, às obrigações, os deveres, os pedidos tão difíceis de recusar. A esposa não gostava que bebesse, não queria ter cachorros, seus filhos não o deixavam um minuto em paz. E, no trabalho, sua consciência e seu chefe não o deixavam relaxar. Faltava-lhe um tempo para sí, um tempo para curtir seus pequenos prazeres. Sentia uma tremenda necessidade de estar só. Mas teria suportado tudo aquilo, se não fossem as brigas. As brigas que foram se tornando diárias, os berros, os ataques. Dia após dia, cansado do trabalho, doido para deitar no sofá e ver televisão, ainda tinha que desperdiçar seu tempo gritando e discutindo.

Naquela última noite, ela não o deixara beber. Brigaram na cozinha, em frente dos filhos. Ele estendia à mão em direção a lata, ela a retirava e batia em seu braço. Furioso, levantou-se com os punhos cerrados, tão distraído por sua raiva e a vontade de esmurrá-la imediatamente que não percebeu o chute no estômago que o fez dobrar-se em dois. As crianças choravam, assustadas.

Furioso, pegou a latinha de cerveja, foi até o quarto, tirou a mala do armário e jogou lá dentro roupas escolhidas aleatoriamente. A mulher, desesperada, gritava para que parasse, o segurava, arranhava suas costas.

Parou o carro no estacionamento de um supermercado. A latinha que trouxera já estava vazia. Sentia a boca cheia de saliva, já preparada para o que lhe aguardava. Gastou bons minutos escolhendo entre diversas marcas de cerveja, vinhos, cachaças e whiskys. Sentia falta de seus filhos, mas era uma falta que emanava distante, como se fossem criaturas pertencentes ao mundo de seus sonhos. Parecia ter-se separado de sua própria vida, e agora estava pronto para nascer de novo e ser feliz. Chegou a admirar algumas das mulheres que o rodeavam, especialmente aquela loira de bermuda curta e camisa regata, que deliciosamente escolhia vinhos. Mas sentia uma certa aversão à beleza, era atraído e ao mesmo tempo repelido; a beleza causava-lhe uma admiração repleta de medos e inseguranças, cheia daquela certeza de que tudo o que queria era estar só.

Colocou as bebidas no porta-malas do carro e voltou a dirigir. Sentia prazer na direção, mais um de seus pequenos prazeres, especialmente quando o porta-malas estava cheio de bebidas. Fez questão de não ligar o rádio, escutava apenas o vento entrando pela janela e os outros carros que velozmente ultrapassava. Algumas vezes pensava na loira de regata abaixando para escolher vinhos. Algumas vezes pensava em seus filhos, suas duas lindas garotinhas, que adoravam montar em suas costas. Continuava a dirigir, podia ter parado naquela cidade, mas não, queria a outra, queria a mais distante, queria afastar-se de sua antiga vida. Queria poder beber uma cerveja e ser feliz.

As lembranças insistiam em persegui-lo, mas sempre com aquele sabor de sonhos. Lembrava-se de sua mulher deitada, nua, em sua lua de mel. A beleza, fascinante e cruel, que o prendia e o sufocava ludibriando-o com o prazer. A beleza, que o atraía, mas com aquela estranha sensação de repulsão. Lembrava-se do dia em que suas filhas nasceram, rosas, sangrentas, feias. O choro insuportável em seus ouvidos. Mas aquela certeza curiosa de que de alguma forma as amaria.

Olhou o horário no rádio. Haveria um jogo esta noite, transmitido de outro país. Sorriu, poderia vê-lo à tempo. Poderia vê-lo sem ser incomodado, sem ninguém que se opusesse à sua vontade, sem ninguém para dizer que queria atenção por favor não veja televisão esta noite, sem ninguém para dizer você está bebendo demais por favor não beba esta noite. Poderia ver o jogo e saborear a cerveja que o esperava ansiosa no porta-malas. Por que a mulher cismara em não deixá-lo beber? Qual era o problema, afinal? Era de noite, já tinha trabalhado, já tinha cumprido com suas obrigações, por que não podia aproveitar um pouquinho sua vida?

Mas aquela noite fora pior. Ela estava mais nervosa. Quando foi a última vez que menstruara? Que dia era hoje… Ah!, sim, trinta e um de agosto, hoje completavam dez anos de casado………… Dez anos de casado………… Suas lindas garotinhas rindo, montadas em suas costas, enquanto andava pelo parque………… Problemas!.. Problemas!.. Não sabia é como aguentara tanto tempo com aquela mulher. Queria era comemorar o primeiro dia da sua solidão. Pensou que jamais se esqueceria daquela data, o primeiro dia em que finalmente poderia viver só.

Dirigiu pelo centro de uma cidade qualquer, procurando um hotel. Já era quase hora do jogo. Achou um apart-hotel bacana, sala, cozinha e banheiro. Podia até morar ali por um tempo. Não precisava realmente ir à empresa, só ia para se concentrar melhor no trabalho mesmo. Bastava enviar sua parte para o chefe, se fizesse tudo direitinho pouco importava para o chefe onde estava.

As bebidas pesavam em seu braço, mas era um grande prazer carregá-las. Sua boca já estava molhada de expectativa. Fez ansioso o registro do quarto, pegou as chaves e subiu no elevador. Era tudo maneiro, o elevador até falava o número do andar, dava boa noite. Abriu a porta do apartamento. A sala tinha um sofá bonito, de couro, com lugar para duas pessoas. Bem, teria que usá-lo sozinho, pensou, com um sorriso irônico no rosto.

Colocou a mala no quarto. Olhou para a cama de casal, grande, espaçosa, que teria que aproveitar sozinho. Bem, teria muito mais espaço para se espreguiçar. Lembrou-se imediatamente da sua mulher deitada, nua, em sua lua de mel. A beleza, a perigosa beleza que o chamava. Tentou afastar os pensamentos, e correu para a sala.

Foi colocar as bebidas na cozinha. Seria uma pena ter que beber a cerveja já quente… Colocou-as no freezer, quem sabe conseguiria tê-las gelada para o segundo tempo?.. Resolveu abrir a geladeira, curioso. Meu Deus! O apart-hotel mantinha um frigobar! Que sorte! Um grande sorriso de satisfação estampou-se em seu rosto. Escolheu a mais gelada das cervejas. Estava excitado, em poucos instantes poderia aproveitar o seu grande momento de prazer.

Sentou-se no sofá, com a lata de cerveja gelada queimando em suas mãos. Ligou a televisão, ansioso pelo jogo de futebol que começaria em breve. Finalmente, poderia vê-lo sem ser incomodado, sem ter que aguentar as reclamações e os lamentos, a mulher pedindo para parar de beber. Nenhuma criança chorando em seus ouvidos, nenhuma mulher pedindo serviços que pouco importavam, falando mal do jogo, reclamando de problemas que pouco afetavam a sua vida. A mulher nua deitada de costas na cama de casal, a beleza, a beleza que atraía e repelia, a beleza que o chamava e o fazia escapar. As garotinhas rindo, montadas em suas costas, enquanto pulava pelo parque. Rindo, rindo, rindo… Abriu a lata gelada de cerveja, já sentindo-a descer quente por sua garganta. E foi naquela expectativa máxima de prazer, pronto para saborear livre o líquido da cevada fermentada e perder-se na emoção do jogo prestes a desfilar em frente de seus olhos, que ele finalmente percebeu toda a tristeza de sentir-se só.

Entrevista no “MilkShake de Palavras”

milkShakeMais uma entrevista foi publicada, desta vez pelo blog “MilkShake de Palavras”. A entrevista está disponível no blog, mas segue também logo abaixo. Se você tem um blog, e também deseja publicar uma entrevista, entre em contato!..

1 – Qual é a sua principal fonte de inspiração?

São várias as fontes de inspiração, e possivelmente muitas das quais eu nem tenho consciência. Mas em geral eu começo com uma pergunta. E meu texto gira em torno desta pergunta, sem necessariamente respondê-la. Por exemplo, o “Vida” surgiu com a pergunta “O que é a Vida?” e “O Grande Livro Das Pessoas Sem Nome” surgiu com a pergunta “Quem sou eu?”. Acho que gosto da ideia da literatura como uma fonte de questionamentos para o leitor, mas sem necessariamente apresentar soluções ou uma resposta qualquer.

Também sou inspirado pelos textos de outros escritores. Acho que todo texto que lemos nos marca de certa forma, e é natural que a nossa produção seja influenciada pelos que mais nos marcaram. Eu adoro escritores como Clarice Lispector, José Saramago, James Joyce… Além de diversas outras influências, que com certeza podem ser reconhecidas no meu livro.

2 – Qual foi o principal foco para a escrita de O Grande Livro Das Pessoas Sem Nome?

A ideia do “O Grande Livro Das Pessoas Sem Nome” é questionar a nossa noção de identidade. Cada conto explora uma diferente faceta de nossa personalidade, em busca de uma resposta impossível para a questão “Quem eu sou?”

3 – Você gosta de escrever desde quando?

Desde o ensino fundamental. Eu escrevi o meu primeiro livro na 4a série, e vendi na Feira do Livro da minha escola. Foi uma experiência transformadora, desde aquele dia tenho iniciado vários projetos. Mas demorou muito tempo até que eu finalmente conseguisse levar um projeto até o fim e terminar mais um livro. O “Vida” surgiu já quando eu estava na faculdade, muitos anos depois da minha primeira experiência.

4 – Qual seu gênero literário favorito?

O gênero de livros que não seguem regras de nenhum gênero (o que é matematicamente impossível… hehe). Em geral gosto de autores que desafiam as regras e inovam de alguma forma. Acho que cada livro é mais do que uma estória, cada livro é um reflexo da visão do escritor do que é literatura, e uma tentativa de concretizar esta visão. Portanto considero que escritores que tem esta visão, mesmo que seja (e talvez tenha que ser) uma visão particular do que é um livro, vão ser capazes de produzir grandes obras ao tentar se aproximar desta visão. Já escritores que simplesmente seguem as regras de um gênero não vão fazer mais do que produzir mais um livro de tal gênero.

5 – Qual a principal mensagem que você quer passar com seus livros?

Como disse antes, eu não acho que a literatura tem que passar uma mensagem. Acho que a literatura tem que passar uma pergunta (se é que a literatura tem que passar alguma coisa!.. hehe). Eu vejo o livro como uma fonte de questionamento e reflexão, mas fica a cargo do leitor encontrar sua própria interpretação e seus próprias respostas (ou mesmo não encontrar resposta nenhuma).

6 – Você sempre recebe depoimentos de seus leitores?

Hmm… Não diria “sempre”, mas tenho recebido depoimentos dos meus leitores. Gostaria de receber mais! :) Recentemente tenho investido mais tempo na divulgação do “O Grande Livro Das Pessoas Sem Nome”, mas acho que ainda não passou tempo suficiente para muitas pessoas terminarem a leitura e me enviarem comentários. Recebi esta semana um comentário excelente de Andressa Amaral (http://www.leandromarcolino.com.br/?p=170). Ela comentou meu livro na forma de um poema, achei bem interessante.

7 – Qual a sua opinião sobre a literatura brasileira na atualidade?

Eu vejo as plataformas digitais como uma grande oportunidade para a literatura brasileira. Infelizmente é muito difícil para o escritor brasileiro publicar seus livros, e as editoras valorizam obras que são cópias de bestsellers internacionais. Acho que no mercado convencional é difícil para um escritor publicar um autêntico livro que reflita sua personalidade/sua visão literária. Enfim, acho que o modelo não valoriza a arte, porque as editores tem que vender muitos exemplares para compensar o investimento, e a única forma de vender um grande número de exemplares é copiar bestsellers. (Não estou dizendo que não há bons livros, estou criticando aqui o modelo convencional, não todas as obras publicadas neste modelo).

Com as plataformas digitais, porém, qualquer um pode publicar um livro diretamente, sem passar pelos filtros das editoras. Tenho visto surgir os mais diversos escritores nos sites de livros digitais. Eu vejo aqui uma grande oportunidade para o desenvolvimento da literatura brasileira. Agora os escritores podem simplesmente escrever o que quiserem, sem se preocupar necessariamente com a rentabilidade de uma obra. Infelizmente, porém, a Amazon por padrão não permite que um livro esteja disponível gratuitamente para o Kindle. Isto é uma grande barreira para os novos escritores, principalmente porque o Kindle é a ferramenta mais popular para a leitura de livros digitais. O mercado brasileiro ainda não está pronto para gastar dinheiro com escritores desconhecidos (nem mesmo R$1,99), e faz uma diferença enorme entre um livro estar disponível de graça ou estar sendo vendido por qualquer valor, não importa quão barato seja.

Uma dica para os novos escritores: para colocar o seu livro de graça para o Kindle, primeiro coloque ele de graça em outra livraria digital, por exemplo a Kobobooks (www.kobobooks.com). Depois envie uma mensagem para a Amazon avisando que o seu livro está disponível de graça em outros lugares, e envie o link do outro local onde o livro está disponível. Pode ser necessário avisar a Amazon americana primeiro, então coloque o livro disponível na Kobobooks americana também (o livro pode estar em português, não quero dizer que é necessário traduzir o livro). Depois que o livro estiver de graça na Amazon americana, contate a Amazon brasileira.

8 – O que você faz no seu tempo vago?

Tempo vago?… Que tempo vago?.. hehe Teoricamente eu escrevo no meu tempo vago!.. :) Mas além de ler e escrever, gosto de jogar Go (http://pt.wikipedia.org/wiki/Go) e esgrima. Também gosto de passear, principalmente nos finais de semana, fazer caminhadas pela mata com minha linda esposa tailandesa.

Confesso que mesmo quando estou passeando levo no meu bolso um pequeno bloquinho de notas. Muitas vezes uso o tempo em que tenho que esperar por alguma coisa para escrever ou anotar alguma ideia. Eu não tenho muito tempo disponível, então é uma ótima forma de aumentar o tempo em que dedico à escrita, além de preservar ideias que de outra forma acabariam sendo esquecidas. Em geral os minicontos que publico em meu site surgiram desta forma.

9 – Quais os planos para o futuro?

Em relação à minha vida ou em relação à escrita? Em relação à minha vida, tenho que terminar meu doutorado e encontrar um emprego!.. Espero me tornar um pesquisador em alguma faculdade por aí…

Em relação à escrita, estou trabalhando no meu terceiro livro. Mas o projeto anda meio parado, porque também estou traduzindo a minha primeira obra, “Vida”, para inglês. Isto é para mim um motivo de conflito, porque o tempo em que gasto na tradução poderia ser melhor investido na produção de uma obra nova. Mas também é importante atingir um grande número de leitores, e ter a obra em inglês ajuda muito neste processo. Por isso este ano resolvi arregaçar as mangas e começar a traduzir.

Pelo menos, tenho trabalhado em paralelo em novos contos, alguns dos quais fazem parte de um projeto literário que estou desenvolvendo com uns amigos meus escritores, incluindo o Armando Alves Neto (www.ospossuidos.com). Em nosso projeto, chamado Vale Literário, cada pessoa propõe um tema-desafio e todos tem que escrever um conto em torno deste tema. É um ótimo exercício, e tem surgido contos bem interessantes. Estamos iniciando agora um site para publicar estes contos, então você já pode encontrar alguns em www.valeliterario.com.br.

10 – Uma mensagem que você gostaria de deixar para os escritores que estão tentando começar a própria obra

Não “tente” começar, simplesmente comece. Abra um editor de texto o mais rápido possível e comece a escrever! :) Há vários desafios que seguram as pessoas e as impedem de começar. Muitos esperam uma inspiração divina, e jamais iniciam nenhuma obra enquanto esta inspiração não vem. Outros querem escrever, mas se perdem em obrigações “mais importantes”, que recebem maior prioridade, e acabam não encontrando tempo para a escrita. Afinal, em geral ninguém pode se dedicar à escrita em tempo integral, todo mundo tem um trabalho, uma obrigação, e algumas vezes o tempo dedicado à escrita pode parecer um tempo “desperdiçado”. Outros tem medo de se expor, de publicar um texto que não é perfeito, de receber críticas negativas.

Não deixe essas coisas te segurarem. Todo escritor tem que lidar com esses conflitos, de uma forma ou de outra, eu mesmo muitas vezes tenho dificuldade em encontrar tempo em meio às minhas obrigações. Mas é importante enfrentar todos esses desafios, não deixar eles te segurarem, e escrever de qualquer forma. A minha dica básica é separar pelo menos uma hora por dia para dedicar à escrita. Mas a dica mais fundamental é: não “tente” iniciar sua obra. Não espere mais. Não importa o que esteja te segurando, simplesmente comece a escrever agora. Agora. Sim, agora. Já começou? ;)

Entrevista no “Um Oceano de Histórias”

Um Oceano de HistóriasEste mês fui entrevistado pelo Blog “Um Oceano de Histórias”. A entrevista está disponível no blog, mas vou reproduzi-la aqui. Se você tem um blog, e quer me entrevistar, entre em contato!

1. Nome completo:

Leandro Soriano Marcolino

2. Idade:

28 anos

3. Quando surgiu a paixão pela escrita?

Primeiro surgiu a paixão pela leitura. Desde criança eu gosto muito de ler. Um dia, ainda no ensino fundamental, minha escola organizou uma Feira do Livro. Nesta feira, vi um aluno vendendo um livro de sua própria autoria. Este aluno era apenas um ou dois anos mais velho do que eu. Isto gerou um insight, a sensação de que se alguém tão real, tão próximo de mim, podia escrever um livro, talvez eu também pudesse fazer o mesmo. Comecei, então, a trabalhar no meu primeiro livro, e o vendi na Feira do Livro do ano seguinte. Foi uma experiência transformadora. Desde então sempre escrevo, mas nunca mais consegui terminar completamente um projeto, até finalmente surgir o romance “Vida”, quando eu já estava na faculdade.

4. O que te inspirou a escrever o livro?

Eu fiz iniciação científica durante a minha graduação. Meu orientador me emprestou um livro relacionado com a minha pesquisa, chamado Swarm Intelligence (por Eberhart & Shi & Kennedy). Este livro é sobre Inteligência Artificial, e o primeiro capítulo discorre sobre questões como: O que é “inteligência”? O que é “vida”? Lembro que os autores mencionam um exemplo supondo um planeta onde os animais são feitos de metal e perguntam se eles seriam considerados como “vivos”. Todas essas indagações me inspiraram a escrever um livro que questione a nossa definição de vida. Foi assim que surgiu o romance “Vida”, meu primeiro livro “oficial” (sem considerar o que eu escrevi quando pequeno).

Já meu segundo livro, “O Grande Livro das Pessoas sem Nome”, não tem uma origem tão clara. A ideia do livro surgiu com o conto “Identidade”, o primeiro livro da obra, sobre uma pessoa que subitamente não é reconhecida por ninguém. Foi após escrever este conto que tive a ideia de escrever o livro. Na verdade, minha intenção inicial era que o “Identidade” fosse um romance inteiro, não apenas um conto. Acho que o transformei em um conto para me exercitar como escritor. Talvez a inspiração para o “Identidade” tenha surgido do livro “O Homem Duplicado”, de José Saramago, que conta a história de uma pessoa que subitamente descobre outra que é uma cópia de si mesma. Talvez à partir daí tenha surgido a ideia de questionar nossa noção de identidade.

Ou talvez não. A origem realmente não é clara. Na verdade, eu escrevi o poema de abertura (e o conto “Desejo”) alguns anos antes do conto “Identidade”, e resolvi adicioná-los no livro depois. Escrevi o poema de abertura após assistir uma peça de teatro, do Festival Internacional do Teatro de Bonecos de Belo Horizonte. Infelizmente não lembro mais o nome da peça, mas cheguei em casa tão inspirado que sentei imediatamente e praticamente vomitei o poema. Acho que foi um dos poemas que escrevi mais rápido até hoje. Portanto, de alguma forma a ideia de escrever sobre identidade já estava dentro de mim, e com o passar dos anos foi se transformando em inspiração para “O Grande Livro das Pessoas sem Nome”.

5. Quais são suas expectativas quanto à isso?

Espero ser lido, e receber críticas e opiniões dos meus leitores. Quando eu publiquei a primeira edição do “Vida”, minha sensação era de que as pessoas só levariam a sério um livro que fosse publicado e vendido de uma forma mais convencional. Mas a primeira edição não vendeu muito, e foi pouco além de amigos, familiares e pessoas conectadas à mim de alguma forma. Ao mesmo tempo, vi as plataformas digitais (como o Kindle, Kobobooks, etc) se tornando cada vez mais comuns.

Por isso, hoje faço esforço para que meus livros estejam disponíveis gratuitamente. Acho que o mais importante agora é atingir o maior número de leitores possíveis, e a Internet é uma ótima ferramenta para isso. Infelizmente, não é fácil ter o livro disponível de graça para o Kindle, a Amazon não tem esta opção por padrão. Foi necessário uma certa insistência até conseguir tornar o livro mais acessível. É impressionante como o número de leitores aumenta drasticamente, quando o preço do livro muda de R$1,99 para R$0,00. Infelizmente, acho que o público brasileiro ainda é muito resistente a gastar dinheiro com livros, principalmente livros de autores nacionais. Pelo menos as plataformas digitais tem permitido o acesso a cada vez mais novos escritores, então espero que o mercado também evolua e acorde para o valor destes escritores.

Poema-Depoimento

Recebi um depoimento muito interessante sobre a obra “O Grande Livro das Pessoas sem Nome”. O comentário veio em forma de poema! Obrigado, Andressa Amaral. Fico feliz que minha obra está inspirando meus leitores. Segue o texto:

“Posso me casar com o seu livro?
Estou lendo-o nesse momento e estou apaixonada.
Há uma certa alegria em ler suas palavras
Há certa depressão em fazer nada

Eu juro que nunca li nada igual
Já devorei Shakespeare e Camões
Mas o seu livro é surreal
É uma pena que eu não o tenho em mãos

Mas agora eu tenho que ir
Tenho que terminar uma viagem única
Com uma linguagem que não sei distinguir
De um homem com uma marrom e surrada túnica”

Dessa (Andressa Amaral)

Leia no Kindle, de graça, “O Grande Livro das Pessoas sem Nome”!

Minha obra “O Grande Livro das Pessoas sem Nome” está agora disponível gratuitamente para Kindle! Aproveite esta oportunidade para ler 14 contos que questionam diversas facetas da nossa identidade. Divulgue para seus amigos! O livro pode ser baixado no site da Amazon brasileira, em http://www.amazon.com.br/gp/product/B00EQC8Y6K/. Caso queira ler em outros formatos, também gratuitamente, acesse aqui.

Miniconto III

Um verso caminhava pelas ruas escuras da cidade, assoviando a sua própria musicalidade. Faminto, vestia roupas justas e se oferecia aos homens em troca de comida. Sonhava em crescer e se tornar uma poesia. Algumas vezes era notado por antologias, mas ocupadas demais com seus próprios poemas, não queriam adotá-lo. Sozinho, com frio, caminhava, esperando o seu lugar no mundo.

Miniconto II

Ele sabia que ia morrer. Recebera uma carta violeta, avisando-lhe a data. Preparou seu testamento. Pediu perdão por seus pecados. Mas havia algo que não conseguia resolver. Debruçado sobre a mesa, passou suas últimas horas sozinho, buscando a prova do grande teorema de sua vida. Não achou a solução. Mas morreu feliz.

Miniconto I

Sentaram. A mulher tentava segurar as lágrimas. Sorria, de alguma forma. Devia estar feliz, sabia que devia estar feliz. Mas como ele reagiria? Uma idosa se aproximou oferecendo rosas. Ele comprou uma. A mulher olhou para a flor, o broto preso no caule. O broto que jamais brotaria. Não aguentou mais. Chorou.

Identidade – Um conto de “O Grande Livro das Pessoas sem Nome”

– Não, você não pode entrar.

– Como assim, não posso entrar? Eu trabalho aqui!

– Sinto muito, senhor, seu nome não está na portaria.

– Meu nome tem que estar na portaria, meu senhor, eu trabalho nesse prédio.

– Sinto muito. São as regras.

– Não. Não, não é possível. Estou nessa empresa há anos, trabalhei aqui ontem, droga, até me despedi de você quando ia embora, comentei sobre o tempo ruim que estava fazendo, a chuva.

– Não me lembro…

– Não se lembra? Caiu um toró danado, um pé d’água horroroso.

– Lembro da chuva, senhor, mas não me lembro de você.

Ficou em silêncio. A declaração, abrupta, sincera, ecoou em seu ouvido como uma ameaça.

– Não se lembra de mim? Como assim, não se lembra de mim? Trabalho aqui há anos, como pode não se lembrar de mim? Está certo que não conversamos, não somos amigos, nem sei seu nome, mas sempre te cumprimento quando chego, sempre me despeço ao sair, acho que merecia ao menos uma lembrança, uma vaga lembrança que seja, pelo menos um “acho que já vi esse sujeito em algum lugar”.

– Eu… sinto muito, senhor. Não tenho uma boa memória.

– Estou vendo! Estou vendo…

Pegou o celular, indignado, e ligou para o chefe.

– Olá! A droga do porteiro não está me deixando entrar.

– Desculpe… Quem fala?

– Sou eu!

– Desculpe, senhor, você poderia dizer o seu nome?

– Sou eu! Não está reconhecendo minha voz?

– Desculpe…

– Sou eu, chefe! Seu assistente!

– Que tipo de brincadeira é essa?

– Como?

– Não tenho assistente nenhum! Vai dar trote em outro, seu imbecil.

A linha foi desligada. Olhava pasmo para o telefone mudo em suas mãos. O porteiro o observava com um leve sorriso sarcástico nos lábios.

– Eu… Eu… acho que vou embora.

Saiu do prédio, segurando a maleta com tanta força que fazia os seus dedos doerem. Não sabia o que fazer, para onde ir, em plena terça-feira de manhã. Será que havia sido despedido? Mas não fazia sentido, sem nenhum aviso prévio nem nada. Não, não era possível, tinha que haver outra explicação. Mas qual?

Voltou para seu apartamento. Sentou na sala de visitas, a cabeça doendo de preocupação. Pelo menos, a atmosfera familiar o ajudava a relaxar. Sentia-se seguro, sentado confortavelmente no sofá conhecido, quente e macio. Fechou os olhos. Meu Deus, o que falaria para a esposa? Como iriam se sustentar agora, sem aquele emprego? Logo agora que as contas estavam mais equilibradas, logo agora que finalmente haviam decidido ter um filho… Ela estava tão feliz… Meu Deus, o que falaria para a esposa?

Ela entrou na sala. Seu olhar ferino o assustou.

– Querida, eu…

– Saia já daqui! – Gritou.

– Como?

– Saia daqui agora, senão eu vou ligar para a polícia!

– Calma, querida, apenas fui demitido, não precisa falar comigo desse jeito.

– Eu não estou brincando. Saia agora!

– Meu amor, vamos conseguir achar uma solução para isso, posso fazer uns bicos…

A mulher pegou o telefone. Ele sabia para onde estava ligando, fugiu desesperado de seu próprio lar. Sentia o coração ainda batendo forte, enquanto andava ofegando pela rua. Já haviam brigado antes, mas nunca daquela forma. Não depois que parou de beber. Ainda olhou uma última vez para seu apartamento, na esperança de ver o rosto conhecido aparecer na janela. Mas nada…

Andou sem rumo pelas ruas da cidade. Tudo parecia cinza e triste, naquele dia nublado de outono. As pessoas passavam apressadas ao seu redor como se não tivessem rosto, apenas manchas escuras em sua visão periférica. Atravessava as ruas como se não tivessem nome, cruzava avenidas que com certeza existiam no infinito de sua memória, mas não se dava ao trabalho de reconhecê-las.

Sentiu fome. Almoçou em um restaurante que jamais vira antes. A comida era deliciosa, apesar da aparência simples do local. Entrou no final de uma longa fila para pagar a conta, irritado e impaciente, como se estivesse atrasado para milhares de compromissos. Enquanto esperava, abriu a carteira para pegar o cartão… que não estava lá. Suava. O cartão não estava lá. Revirou a carteira, procurou dentro da maleta, olhou os bolsos. Nada. Pelo menos, encontrou uma nota de dez reais. Mas como faria sem seu cartão? Onde dormiria, como se alimentaria, sem a droga do cartão?

Entregou com tristeza sua única nota para a jovem que trabalhava no caixa. Ela ostentava um crachá no peito, mas não se deu ao trabalho de ler seu nome. A jovem devolveu dois reais, tudo o que lhe restava. Guardou o dinheiro no bolso, voltou para a rua, voltou para a multidão que o atravessava como se não existisse, como se fosse um fantasma empoeirado de tempos imemoriais que somente soltava gemidos para ninguém ouvir. Sentia-se só.

Resolveu andar até a casa dos pais. Era um caminho longo, demorou mais de uma hora para chegar. Parou em frente à casa, aquela construção alta e antiga de dois andares. De repente não queria mais tocar a campainha, não queria mais dizer quem era no interfone. Aproximou-se da porta alta de madeira, que o olhava com imponência. Suava, sentia-se nervoso em encontrar seus próprios progenitores, quase como se já soubesse o que iria acontecer. Seu dedo tremia tanto que teve dificuldade para tocar o interruptor. Quando finalmente acertou a mira, escutou o som que ecoava pelas paredes indiferentes da casa. Aguardou, apreensivo. Desejava nunca ter estado ali.

– Quem é? – A voz rouca e velha de sua mãe.

– Sou eu, mamãe.

Silêncio.

– Quem está aí? – A voz dura e forte de seu pai.

– Sou eu, papai.

– Saia daqui! Nunca tivemos filhos, seu vagabundo! Vai enganar outro! Cafajeste.

Abriu a boca para responder, mas as palavras não conseguiram sair. Não chorava há muitos anos, mas dessa vez não aguentou. As lágrimas caíam de seus olhos, fechando a sua garganta, dominando seu corpo e sua mente. Virou-se, tinha que sair dali, tinha que caminhar para longe, para algum lugar que não fosse aquele onde não o queriam. Andou com dificuldade, os pés pareciam sangrar a cada passo, apesar de não sair uma única gota de sua pele suada. As imagens estavam turvas pelas lágrimas, chovia, suas roupas estavam encharcadas, mas percebia isso tudo apenas levemente, como a brisa que toca nossa pele com seus dedos de seda. Adormeceu em um parque qualquer, em algum lugar qualquer da cidade.

Acordou no meio da noite. Não sabia as horas. O parque estava escuro e frio. Perdeu o sono. Levantou-se, mendigos roncavam a seu redor. Olhou para o céu estrelado, as estrelas sem nome o encaravam com fúria. Procurou o cruzeiro do sul, mas não o encontrou. Não existia nenhuma constelação naquele céu, apenas milhares de estrelas sem nome e sem rosto a percorrer os vazios de um universo infinito. Uma estrela cadente atravessou o espaço, vindo não se sabe de onde, indo para algum lugar qualquer.

Um vira-lata aproximou-se. O cão encarou-o por um longo instante, antes de inspirar profundamente, procurando fixar seu cheiro em sua mente canina. Afastou-se, então, rumo à escuridão do parque, talvez o único ser capaz de o reconhecer. Viu-se novamente só. Fechou os olhos e, num instante de desespero, tentou se lembrar de toda a sua vida, temendo tê-la esquecido.

Não havia esquecido. Talvez isso fosse o pior. Suas memórias a partir do terceiro ano em que caminhou por este mundo mantinham-se intactas em sua mente, dando-lhe todo o sentido de identidade que pode ter alguém que sabe seu nome, sua profissão, suas preferências, que conhece seus amigos, sua esposa, lembra algumas datas de nascimento e alguns telefones. Estava tudo ali, nas interconexões de seus neurônios, tudo o que o fazia ser quem acreditava que era. O que estava errado, então?

Andou até a fonte, olhou o seu rosto na água, iluminado pela luz anônima da lua. Os olhos, as bochechas, os lábios, o nariz, as sobrancelhas, as orelhas, o cabelo, o queixo, tudo igual àquela velha imagem que tinha de si mesmo, com exceção das movimentações suaves provocadas pelo eterno deslizar das águas, com exceção do despenteado de seus cabelos que seria sempre diferente do de qualquer outra imagem que já vira de si. Viu as lágrimas de seus olhos encontrando-se com as águas da fonte, misturando com as outras milhares de gotas e perdendo o sal que as caracteriza.

Sentou-se na grama, encostou a nuca no mármore frio. Fechou os olhos, tentando sentir o suave caminhar da noite, mas o barulho dos mendigos sem nome o incomodava. Levantou-se, olhou ao redor, viu vários mendigos iluminados pela luz da lua, adivinhou mais centenas perdidos na escuridão. Todos compondo aquela sinfonia da inconsciência, talvez a primeira música que jamais foi tocada pela humanidade. Caminhou lentamente pelo parque, mais bancos e mais mendigos entravam em seu campo de visão, enquanto os outros perdiam-se em sua memória. Mendigos gordos, exalando sons graves, mendigos magros, soltando agudos sons no ar. Mendigos pequenos, acompanhados de sons altos, mendigos grandes, mas cujo corpo deixava escapar o mais baixo dos sons. Caminhava e caminhava, sempre vendo aquela imensidão de mendigos ao seu redor, homens e mulheres, adultos e crianças, todos abandonados no parque, compondo-o como as árvores sem nome que os viam nas centenas de seus pacientes anos.

A perna começou a doer. O corpo apresentava seus sinais de cansaço. Sentia vontade de parar, de deitar-se, de abandonar-se na doce bruma da inconsciência. Mas todos os bancos estavam ocupados, todos os bancos por onde passava continham mendigos anônimos. Arrastava-se, carregava o seu próprio corpo a cada passo. Finalmente, próximo ao vira-lata que novamente dava o ar de sua presença, avistou um banco vazio. Havia uma palavra pichada no encosto do banco, mas não conseguiu ler. Talvez fosse o seu nome. Talvez não. Mas deitou-se naquele banco, vencido pela tristeza, vencido pelo cansaço. Fechou os olhos. Deixou os músculos relaxarem.

A lua iluminava o parque, onde ele era mais um entre os mendigos sem nome que compunham a mais antiga das sinfonias. Podemos vê-los todos, em toda a sua diversidade, em toda a sua homogeneidade, como se fossem estrelas, sem nome e sem rosto a percorrer os vazios de um universo infinito. O vira-lata ainda atravessa o parque, vindo não se sabe de onde, indo para algum lugar qualquer.

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