Identidade – Um conto de “O Grande Livro das Pessoas sem Nome”

– Não, você não pode entrar.

– Como assim, não posso entrar? Eu trabalho aqui!

– Sinto muito, senhor, seu nome não está na portaria.

– Meu nome tem que estar na portaria, meu senhor, eu trabalho nesse prédio.

– Sinto muito. São as regras.

– Não. Não, não é possível. Estou nessa empresa há anos, trabalhei aqui ontem, droga, até me despedi de você quando ia embora, comentei sobre o tempo ruim que estava fazendo, a chuva.

– Não me lembro…

– Não se lembra? Caiu um toró danado, um pé d’água horroroso.

– Lembro da chuva, senhor, mas não me lembro de você.

Ficou em silêncio. A declaração, abrupta, sincera, ecoou em seu ouvido como uma ameaça.

– Não se lembra de mim? Como assim, não se lembra de mim? Trabalho aqui há anos, como pode não se lembrar de mim? Está certo que não conversamos, não somos amigos, nem sei seu nome, mas sempre te cumprimento quando chego, sempre me despeço ao sair, acho que merecia ao menos uma lembrança, uma vaga lembrança que seja, pelo menos um “acho que já vi esse sujeito em algum lugar”.

– Eu… sinto muito, senhor. Não tenho uma boa memória.

– Estou vendo! Estou vendo…

Pegou o celular, indignado, e ligou para o chefe.

– Olá! A droga do porteiro não está me deixando entrar.

– Desculpe… Quem fala?

– Sou eu!

– Desculpe, senhor, você poderia dizer o seu nome?

– Sou eu! Não está reconhecendo minha voz?

– Desculpe…

– Sou eu, chefe! Seu assistente!

– Que tipo de brincadeira é essa?

– Como?

– Não tenho assistente nenhum! Vai dar trote em outro, seu imbecil.

A linha foi desligada. Olhava pasmo para o telefone mudo em suas mãos. O porteiro o observava com um leve sorriso sarcástico nos lábios.

– Eu… Eu… acho que vou embora.

Saiu do prédio, segurando a maleta com tanta força que fazia os seus dedos doerem. Não sabia o que fazer, para onde ir, em plena terça-feira de manhã. Será que havia sido despedido? Mas não fazia sentido, sem nenhum aviso prévio nem nada. Não, não era possível, tinha que haver outra explicação. Mas qual?

Voltou para seu apartamento. Sentou na sala de visitas, a cabeça doendo de preocupação. Pelo menos, a atmosfera familiar o ajudava a relaxar. Sentia-se seguro, sentado confortavelmente no sofá conhecido, quente e macio. Fechou os olhos. Meu Deus, o que falaria para a esposa? Como iriam se sustentar agora, sem aquele emprego? Logo agora que as contas estavam mais equilibradas, logo agora que finalmente haviam decidido ter um filho… Ela estava tão feliz… Meu Deus, o que falaria para a esposa?

Ela entrou na sala. Seu olhar ferino o assustou.

– Querida, eu…

– Saia já daqui! – Gritou.

– Como?

– Saia daqui agora, senão eu vou ligar para a polícia!

– Calma, querida, apenas fui demitido, não precisa falar comigo desse jeito.

– Eu não estou brincando. Saia agora!

– Meu amor, vamos conseguir achar uma solução para isso, posso fazer uns bicos…

A mulher pegou o telefone. Ele sabia para onde estava ligando, fugiu desesperado de seu próprio lar. Sentia o coração ainda batendo forte, enquanto andava ofegando pela rua. Já haviam brigado antes, mas nunca daquela forma. Não depois que parou de beber. Ainda olhou uma última vez para seu apartamento, na esperança de ver o rosto conhecido aparecer na janela. Mas nada…

Andou sem rumo pelas ruas da cidade. Tudo parecia cinza e triste, naquele dia nublado de outono. As pessoas passavam apressadas ao seu redor como se não tivessem rosto, apenas manchas escuras em sua visão periférica. Atravessava as ruas como se não tivessem nome, cruzava avenidas que com certeza existiam no infinito de sua memória, mas não se dava ao trabalho de reconhecê-las.

Sentiu fome. Almoçou em um restaurante que jamais vira antes. A comida era deliciosa, apesar da aparência simples do local. Entrou no final de uma longa fila para pagar a conta, irritado e impaciente, como se estivesse atrasado para milhares de compromissos. Enquanto esperava, abriu a carteira para pegar o cartão… que não estava lá. Suava. O cartão não estava lá. Revirou a carteira, procurou dentro da maleta, olhou os bolsos. Nada. Pelo menos, encontrou uma nota de dez reais. Mas como faria sem seu cartão? Onde dormiria, como se alimentaria, sem a droga do cartão?

Entregou com tristeza sua única nota para a jovem que trabalhava no caixa. Ela ostentava um crachá no peito, mas não se deu ao trabalho de ler seu nome. A jovem devolveu dois reais, tudo o que lhe restava. Guardou o dinheiro no bolso, voltou para a rua, voltou para a multidão que o atravessava como se não existisse, como se fosse um fantasma empoeirado de tempos imemoriais que somente soltava gemidos para ninguém ouvir. Sentia-se só.

Resolveu andar até a casa dos pais. Era um caminho longo, demorou mais de uma hora para chegar. Parou em frente à casa, aquela construção alta e antiga de dois andares. De repente não queria mais tocar a campainha, não queria mais dizer quem era no interfone. Aproximou-se da porta alta de madeira, que o olhava com imponência. Suava, sentia-se nervoso em encontrar seus próprios progenitores, quase como se já soubesse o que iria acontecer. Seu dedo tremia tanto que teve dificuldade para tocar o interruptor. Quando finalmente acertou a mira, escutou o som que ecoava pelas paredes indiferentes da casa. Aguardou, apreensivo. Desejava nunca ter estado ali.

– Quem é? – A voz rouca e velha de sua mãe.

– Sou eu, mamãe.

Silêncio.

– Quem está aí? – A voz dura e forte de seu pai.

– Sou eu, papai.

– Saia daqui! Nunca tivemos filhos, seu vagabundo! Vai enganar outro! Cafajeste.

Abriu a boca para responder, mas as palavras não conseguiram sair. Não chorava há muitos anos, mas dessa vez não aguentou. As lágrimas caíam de seus olhos, fechando a sua garganta, dominando seu corpo e sua mente. Virou-se, tinha que sair dali, tinha que caminhar para longe, para algum lugar que não fosse aquele onde não o queriam. Andou com dificuldade, os pés pareciam sangrar a cada passo, apesar de não sair uma única gota de sua pele suada. As imagens estavam turvas pelas lágrimas, chovia, suas roupas estavam encharcadas, mas percebia isso tudo apenas levemente, como a brisa que toca nossa pele com seus dedos de seda. Adormeceu em um parque qualquer, em algum lugar qualquer da cidade.

Acordou no meio da noite. Não sabia as horas. O parque estava escuro e frio. Perdeu o sono. Levantou-se, mendigos roncavam a seu redor. Olhou para o céu estrelado, as estrelas sem nome o encaravam com fúria. Procurou o cruzeiro do sul, mas não o encontrou. Não existia nenhuma constelação naquele céu, apenas milhares de estrelas sem nome e sem rosto a percorrer os vazios de um universo infinito. Uma estrela cadente atravessou o espaço, vindo não se sabe de onde, indo para algum lugar qualquer.

Um vira-lata aproximou-se. O cão encarou-o por um longo instante, antes de inspirar profundamente, procurando fixar seu cheiro em sua mente canina. Afastou-se, então, rumo à escuridão do parque, talvez o único ser capaz de o reconhecer. Viu-se novamente só. Fechou os olhos e, num instante de desespero, tentou se lembrar de toda a sua vida, temendo tê-la esquecido.

Não havia esquecido. Talvez isso fosse o pior. Suas memórias a partir do terceiro ano em que caminhou por este mundo mantinham-se intactas em sua mente, dando-lhe todo o sentido de identidade que pode ter alguém que sabe seu nome, sua profissão, suas preferências, que conhece seus amigos, sua esposa, lembra algumas datas de nascimento e alguns telefones. Estava tudo ali, nas interconexões de seus neurônios, tudo o que o fazia ser quem acreditava que era. O que estava errado, então?

Andou até a fonte, olhou o seu rosto na água, iluminado pela luz anônima da lua. Os olhos, as bochechas, os lábios, o nariz, as sobrancelhas, as orelhas, o cabelo, o queixo, tudo igual àquela velha imagem que tinha de si mesmo, com exceção das movimentações suaves provocadas pelo eterno deslizar das águas, com exceção do despenteado de seus cabelos que seria sempre diferente do de qualquer outra imagem que já vira de si. Viu as lágrimas de seus olhos encontrando-se com as águas da fonte, misturando com as outras milhares de gotas e perdendo o sal que as caracteriza.

Sentou-se na grama, encostou a nuca no mármore frio. Fechou os olhos, tentando sentir o suave caminhar da noite, mas o barulho dos mendigos sem nome o incomodava. Levantou-se, olhou ao redor, viu vários mendigos iluminados pela luz da lua, adivinhou mais centenas perdidos na escuridão. Todos compondo aquela sinfonia da inconsciência, talvez a primeira música que jamais foi tocada pela humanidade. Caminhou lentamente pelo parque, mais bancos e mais mendigos entravam em seu campo de visão, enquanto os outros perdiam-se em sua memória. Mendigos gordos, exalando sons graves, mendigos magros, soltando agudos sons no ar. Mendigos pequenos, acompanhados de sons altos, mendigos grandes, mas cujo corpo deixava escapar o mais baixo dos sons. Caminhava e caminhava, sempre vendo aquela imensidão de mendigos ao seu redor, homens e mulheres, adultos e crianças, todos abandonados no parque, compondo-o como as árvores sem nome que os viam nas centenas de seus pacientes anos.

A perna começou a doer. O corpo apresentava seus sinais de cansaço. Sentia vontade de parar, de deitar-se, de abandonar-se na doce bruma da inconsciência. Mas todos os bancos estavam ocupados, todos os bancos por onde passava continham mendigos anônimos. Arrastava-se, carregava o seu próprio corpo a cada passo. Finalmente, próximo ao vira-lata que novamente dava o ar de sua presença, avistou um banco vazio. Havia uma palavra pichada no encosto do banco, mas não conseguiu ler. Talvez fosse o seu nome. Talvez não. Mas deitou-se naquele banco, vencido pela tristeza, vencido pelo cansaço. Fechou os olhos. Deixou os músculos relaxarem.

A lua iluminava o parque, onde ele era mais um entre os mendigos sem nome que compunham a mais antiga das sinfonias. Podemos vê-los todos, em toda a sua diversidade, em toda a sua homogeneidade, como se fossem estrelas, sem nome e sem rosto a percorrer os vazios de um universo infinito. O vira-lata ainda atravessa o parque, vindo não se sabe de onde, indo para algum lugar qualquer.

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