Bondade – Um conto de “O Grande Livro das Pessoas sem Nome”

– É um assalto.

As palavras atravessaram o ouvido do motorista como se fossem armas. Era um assalto. Parecia inacreditável, mas as exclamações de medo e surpresa dos passageiros confirmavam que era real. Sabia que todos os dias corria o risco de ser assaltado, mas essa possibilidade de alguma forma sempre soara distante, algo que poderia acontecer com qualquer um, mas que por algum motivo inexplicável jamais aconteceria com ele. Mas se enganara. Claro que esse sentimento de segurança não foi fruto de nenhuma reflexão racional, era apenas aquele falso sentimento que todos precisamos ter para que consigamos sobreviver neste mundo onde a cada instante a morte está pronta para mostrar seus sedentos e afiados dentes caninos.

Um dos assaltantes exibia a arma, símbolo de sua força e poder. O metal frio parecia colado em sua mão, como se fizesse parte de seu próprio corpo aquele objeto que não tinha outra finalidade além de subjugar e destruir. Chegava a ser difícil dizer se era o homem que empunhava o revólver, ferramenta de seu assalto, ou se era o revólver que controlava o homem, como um parasita controlando um estúpido hospedeiro. Mas, independente de quem vencia aquele jogo de poder, era o assaltante que abria a boca e requisitava relógios, tênis, dinheiro, celulares, colares e brincos que poderiam ter algum valor que não fosse meramente estético; além de qualquer objeto, enfim, que pudesse valer algum dinheiro, objetivo único e final de todo o seu trabalho e esforço. Enquanto isso, o outro assaltante mantinha uma arma colada à pele do motorista. O local coçava, como se reagisse a um corpo estranho, mas nada poderia fazer para eliminá-lo. Só restava assistir passivamente à conquista de seu corpo e de suas vontades por aquela ameaça muda de morte.

O assaltante mandou que continuasse dirigindo, sem parar em nenhum ponto. Engraçado como era fácil prosseguir, parar no sinal vermelho, acelerar no verde, observar quando havia uma parada obrigatória, dar a preferência quando a sinalização assim o requisitava, frear quando o carro da frente subitamente acendia suas perigosas luzes vermelhas. Era difícil apenas impedir o pé direito de pressionar o freio, quando uma pessoa levantava o braço e esticava o indicador, sinalizando o seu desejo de entrar, tão difícil que algumas vezes seu pé chegava a deixar o acelerador e tocar levemente o pedal ao lado, parando apenas ao se lembrar do metal frio que estava colado ao seu pescoço. Como era triste ver o rosto de um possível passageiro metamorfosear-se do alívio de quem finalmente via a longa espera aproximar-se do fim, para a profunda decepção de quem está prestes a enfrentar uma nova interrupção em sua vida, que poderá ser ainda maior do que a espera que julgara ter acabado. Mas o cano de metal e suas ameaças silenciosas impediam-no de fazer o que o seu corpo executaria com toda a naturalidade, dispensando qualquer intenção de buscar aqueles que pediam para que realizasse o simples ato de deixar o pesado ônibus perder a velocidade e abrir às portas para quem quer que desejasse entrar e prosseguir com seu destino.

Pelo espelho seus olhos viam as pessoas entregando seus bens valiosos, seus ouvidos não podiam deixar de escutar o choro das mulheres e das crianças, algumas percebendo pela primeira vez como o fio que nos prende à vida é tênue e frágil. Tantas pessoas, que desejavam apenas se locomover, sair de um ponto e ir para outro, desejo tão normal a nós que já fomos nômades, que já tivemos que caçar para provar as delícias de um tenro alimento, e agora viam-se atacadas no caminho de suas rotinas, naquele ônibus que se recusava a parar, avançando incansavelmente pelas ruas e avenidas de uma cidade que não se importava nem um pouco com o que acontecia lá dentro. Sua boca desejava gritar, gritar para que parassem, gritar pela polícia, seus pulmões chegavam a preparar o ar para uma comunicação que jamais existiria, pois a sensatez segurava os seus lábios com força, machucando-os. Que polícia o escutaria atrás dos vidros fechados do ônibus? Que bandido pararia e desistiria de suas recompensas pelo simples pedidos desesperados de um pobre motorista? De que adiantaria sacrificar sua própria vida, arriscar o sangue que deslizava por seu corpo, em uma vã tentativa de impedir que seus passageiros fossem atacados? Nada podia fazer além de continuar os movimentos naturais de seu corpo, que controlavam a grande caixa de metal como se fizesse parte de si, fazendo curvas como se girasse o seu próprio tronco, acelerando como se aumentasse a velocidade de suas próprias pernas, freando como se protegesse o seu próprio organismo.

Parou em um sinal vermelho. Um policial fez sinal para entrar. A mão esquerda chegou a deixar o volante, desejando ir até o botão que abriria a porta. Mas o assaltante pressionou o metal com mais força em sua pele, lembrando-o das consequências imediatas de qualquer ato desagradável. A mão esquerda voltou ao volante, obediente, volátil, dócil, enquanto o policial era deixado para trás, sem compreender o que acontecia. Enquanto isso, o outro bandido pegava toda a mísera aposentadoria de uma senhora, que se indagava como faria sem aquele dinheiro. O motorista não conhecia sua história, mas adivinhava outras mil muito piores, outras cem muito mais tristes, outras dez muito mais assustadoras.

Via o senhor de óculos fundos e bengala abrindo uma geladeira sem uma única comida para apaziguar-lhe a fome, via a linda rapariga loira sendo espancada pelo pai furioso por ter perdido o dinheiro da bebida, recebendo golpes tão fortes no rosto que chegavam a quebrar-lhe os óculos, via o garoto tendo o resto de sua vida marcada por aquele dia, tendo que tratar-se durante anos para superar o trauma que o impedia de sair de casa e ter a vida despreocupada que apenas as crianças merecem ter.

Por trás dos vidros do ônibus, todos que entravam em seu campo visual pareciam ser bandidos, os mendigos prontos para atacar qualquer um para finalmente ter algo para comer, os ricos prontos para fraudar e enganar apenas para acrescentar mais números à louca matemática em que viviam, os homens prontos para estuprar e as mulheres prontas para seduzir e destruir. Viu nas mãos de um homem alto, vestido de preto, a própria foice da morte que um dia há de nos levar a todos, como se andasse pelas ruas sujas da cidade escolhendo arbitrariamente quem seria o próximo a ser ceifado. A noite já subia no horizonte, trazendo toda uma série de visões comuns a seus pesadelos. Todo o mundo parecia ameaçá-lo, todo o universo parecia pronto para atacar a qualquer instante, preparando os seus milhões de cometas para cair em um único momento em quem quer que estivesse no fim da linha vermelha de seu destino. A segurança com que vivera por toda a sua vida parecia ser os inacreditáveis delírios de um louco; os planos que traçara para o seu futuro pareciam meras utopias impossíveis, prontas para serem destruídas com o simples apertar de um gatilho, o simples cortar de uma faca, o simples movimento de uma velha foice enferrujada.

Lembrou-se, naquele momento, do dia em que pegara o lápis de um colega, nos inocentes anos de sua infância, quando a posse e a propriedade ainda estavam sendo impostas a seu super ego. Jamais pensara naquele dia novamente, a lembrança estava apagada como algo sujo que não desejava voltar a ver, mas não poderia ser removida com a mesma facilidade com que apagamos um palavrão com uma borracha. Estava ainda tão viva em sua memória, tão presente aquele passado, que podia ver em sua frente o belo lápis azul, com círculos pretos de mesmo raio por toda a sua extensão, e uma borracha rosada na ponta. Podia sentir novamente aquele profundo e insuportável desejo de posse que tomara conta de seu espírito. Via o menino levantando-se, (como ele chamava mesmo?), dirigindo-se para fora da sala ao término das aulas, pronto para receber os doces carinhos de sua amorosa mãe, enquanto o lápis paciente mantinha-se deitado ao lado da carteira, esperando ser apanhado por quem o desejasse. Como foi doce aquele toque com a madeira polida, que fizera vibrar cada batida de seu coração. Aquele sentimento viciante de posse, de conquista, que com certeza devia ser o mesmo sentido pelos maiores generais ao admirar o campo sujo de sangue. Podia sentir novamente o contato da madeira em seus dedos, deslizar na superfície lisa até encontrar o contato da borracha, enquanto a outra mão espetava-se no grafite afiado, até sair um fino filete de sangue. Naquela noite dormira segurando o lápis, enquanto sua mente sonhava com toda a série de conquistas que lhe preparava a vida. Jamais pensaria que aquele ato logo se tornaria em um motivo de vergonha e arrependimento que tentaria esconder de si mesmo por quase quarenta anos de sua existência.

O tiro o trouxe de volta à realidade que se gritava presente. Controlou o impulso de virar-se subitamente para trás, pois temia a reação do bandido que o ameaçava. Levou os olhos ao espelho, em um movimento inacreditavelmente tão calmo que perturbava o seu espírito ansioso. Felizmente, a imagem mostrou-lhe que ninguém estava ferido. Uma jovem, pálida, no fundo do ônibus, entregava ao assaltante um colar que o motorista subitamente teve a certeza de que era uma joia. Talvez pela relutância e desespero que via, ou adivinhava, nos olhos da mulher. Talvez pelo esboço de satisfação que podia quase enxergar nos lábios do assaltante. De alguma maneira, sabia que aquele colar não poderia ser apenas uma bijuteria. Poderia ter sido resultado do árduo trabalho e esforço da jovem, que durante meses economizara para poder exibir um falso status social que tanto sonhava em possuir; poderia ter sido um presente de um rico jovem apaixonado, que provavelmente a deixaria depois da primeira noite de amor; poderia ser fruto das arriscadas fraudes e especulações de seu pai. Mas agora se perdia, retornando ao vazio de onde viera.

Os assaltantes mandaram abrir a porta frontal, o que fez com um sentimento que se aproximava do alívio, ao ver o espaço por onde finalmente iriam sair, deixando sua vida para sempre. Por um instante, um desses loucos instantes em que pensamos as coisas mais inverossímeis, chegou a acreditar que seria capaz de esquecer tudo aquilo. Mas um dos bandidos, talvez o que o ameaçara o tempo todo com o revólver, talvez o que atacara seus passageiros, retirou um pacote da sacola e estendeu a mão que o segurava, como se oferecesse um presente.

– Cê é gente boa, motô. Toma esse perfume que peguei antes de entrar no balaio.

O motorista olhava incrédulo para o belo pacote da Água de Cheiro, exibindo toda a delicadeza de flores e folhas, que remetiam a uma tranquilidade e beleza quase bucólica. Segurou o volante com força, como se quisesse impedir suas mãos de se condenarem ao pegar o pacote oferecido. Mas não sentiu a borracha dura do volante. Sentiu aquela delicada borracha rosa, em seguida o contato doce da madeira lisa. Lembrou-se daquele sentimento viciante de posse, de conquista, do lindo campo sujo de sangue. Como desejava espetar a ponta do dedo no grafite afiado, e ver novamente aquele filete fino vermelho. O outro assaltante puxou o colega, ansioso.

– Vão logo. Tá chamanu atenção dos neguim.

– Pega logo aí, motô. Num tomei esse aqui no balaio não.

Pegou o pacote. Foi inacreditável ver suas mãos irem em direção à caixa, enquanto sua boca quase murmurava um obrigado, como se seu corpo subitamente tivesse assumido uma outra vida, como se um alter ego houvesse se revelado. Ou, então, (e isso que mais o assustava) como se uma máscara de moral e ética tivesse sido violentamente arrancada, exibindo aquele monstro que sempre tentara esconder. O contato da caixa em seus dedos parecia ser o contato liso da madeira de um lápis, o que ao mesmo tempo agradava imensamente os seus sentidos, mas o machucava, como se arrancasse um filete fino de sangue de seu dedo. Justificou mais tarde que pegara o perfume por medo, que temia a reação do bandido, que queria proteger seus passageiros, que temia a afiada foice da morte, mas sabia que não era verdade. Pegou o perfume por algum motivo que estava além da sua capacidade de compreender a si mesmo. Ou por um motivo tão simples que jamais teria a coragem de admitir.

Ao chegar em casa, no amanhecer do dia seguinte, trancou-se no banheiro e chorou, chorou como um bebê. Felizmente a esposa já havia saído para o trabalho. Quando ela retornou (a noite já caía no horizonte), ele entregou-lhe o pacote com um sorriso nos lábios. Os olhos da mulher brilharam de satisfação ao ver o vidro caro e elegante, tão além do que sabia que seu marido poderia ousar gastar. Agradeceu com um beijo delicioso, enquanto começava a desabotoar-lhe a camisa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Current month [email protected] day *